sábado, 17 de março de 2012

Caminhos democráticos



O inimigo refuta os “estreitos” e
“ultrapassados” caminhos de tua luta

E constrói para elas, vastas
alamedas democráticas

Poderão elas levar a tua vitória?







Fábio F Souza

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Detrás do véu


Fora um longo
e lento e lindo
dia que perdurou
anos e me deliciei
por dias e noites

Curioso que mesmo
despida mantinhas
por capricho o rosto
sob um belo e rendado véu

Apenas ao retirar-lo
percebi aturdido

Que teu dia
era densa noite
e todo amor açoite

Fábio

domingo, 5 de dezembro de 2010

Uma dama em minha cama



Chegou com olhar firme e passos
timidamente determinados
em minutos entrelaça-mo-nos os lábios

E o ballet das línguas
E a dança das mãos
O entrelaçar dos dedos

Os corpos que buscavam o encaixe perfeito
O vagabundo e a dama
entrelaçados
rolaram até a cama

Dai o "jogo do despir"
(os dois qual criança com novo brinquedo)
tirar as roupas, a cada milímetro
desvendando segredos
todos minuciosamente
examinados
devassados
por olhos,
boca,
língua,
e dedos

Olhares de tesão arrojados
mãos que seguravam um ao outro
como quem segura
para que de ti não fuja o pecado

A canção dos suspiros
a ser lapidada
por bocas secas e línguas molhadas

Seu corpo estendido na cama
o umidecer dos dedos
no sexo molhado da dama,
em silêncio de noite calada
que só os gemidos profanavam

Em nós o fogo ardia,
em nossas bocas
o sexo alheio de tão quente,
dava a impressão que derretia

E ao penetrar em tal dama sentia
(eu que não rendo tributos a magia)
como que surgido um Sol na noite
ou Lua-cheia ao meio dia

A rígida dança dos corpos
E o ballet da primavera
ou ainda a primitiva-dança-da-vida
que a natureza perpetua através das eras

Suas unhas em minhas costas cravadas
seus cabelos que minhas mãos seguravam
seu sexo preenchido a cada estocada
e os urros selvagens que o ar habitavam
no auge da euforia o gozo,
que de tão intenso,
intensidade não definia

Hora estava a dama a meu lado
outrora presente sua ausência se fazia
e partira como chegara,
assim como
o primeiro filme-álibi
que
nunca terminara...


Fábio

Eu pra mim é pouco


E então, que quereis?
Fiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes. E logo de cada fronteira distante subiu um cheiro de pólvora perseguindo-me até em casa. Nestes últimos vinte anos nada de novo há no rugir das tempestades. Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas. (1927) (Maiakóvski)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Desdobramentos


Quando os indivíduos depuseram as armas
os corpos se entrelaçaram
Após o amor depôr as armas
a paixão já era finda
As mãos em pala procuravam a saída do vazio
mas o vazio era tudo o que encontravam
Ela o amava, tanto quanto ele a ela
mais de tanto temer a morte do amor
a este mataram de tédio

Fábio F. Massari

“Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro”


Bertolt Bracht

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quadrilhas


A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

(Chico)

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história (Drumont)