terça-feira, 13 de outubro de 2009

30 e um terço


Começo a sentir o peso de minhas três décadas e um terço,

A nova regra é menos e melhor

Ando mais seletivo

Menos tolerante com coisas

E mais paciente com pessoas


Nos velhos bares a música alta irrita-me

As novas músicas já não agradam


Estou ficando chato


As vezes penso que os velhos lugares já não são os mesmos


Mas talvez os lugares sejam os mesmos,

Eu é que me converto em outro

Sem deixar de ser quem sou

Sou e não sou o mesmo a cada ano...


Acho que estou ficando velho


Isso constato entre um remédio de pressão

E a sobriedade de saber que embora esteja no por vir

Não será amanhã cedo a almejada revolução


Reparo com mais afinco a beleza das flores

Que por isso, agora me parecem mais belas

Reparo com mais carinho as lutas de minha classe

E o empenho de construir nossa primavera


Percebo (talvez de forma tardia), que minha

“adolescência” já se passou

A questão não é mais quantidade,

é qualidade,

intensidade,

aroma,

sabor

e

poesia


Alimentar-se do calor da classe

do amor dos filhos,

da intensidade da paixão,

do fervor das amizades,

do ardor da revolução



O aprendizado parece resumir-se em uma regra só

Para tudo na vida, ser intenso e paciente

Fazer “menos e melhor”

Fábio Che

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

miscigenação



Percebi a alguns Outubro's
Não ser branco
E nem negro
Com meu sangue mestiço
sou apenas rubro...

Frio




Nesses dias frios (muito frios)
De passeios e relógios mansos

Em que o tempo chega quase a parar

Nessas madrugadas de céu estrelado
em que o calor dos corpos aquece a lareira
Sinto uma profunda alegria
ao lado de minha companheira,
Chego quase a pensar que a felicidade existe
(quanto algo concreto)
E não seja ilusão passageira.


F. S. Massari

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Uma visão de mundo


Era uma mulher cega
Era uma mulher negra
Era uma mulher de luta


Dedos que tateavam coisas
Mãos a tatear a casa
Ouvidos atentos
Sorriso cativante
Voz pausada
Rosto sofrido
Mulher engajada


Com sua habilidade em contar causos
Rápido se passava o dia
Era preciso alguém lembrar da cegueira
Pois o visitante, logo se esquecia
Tamanha sua capacidade, precisão, maestria


Ao nos receber nada a mantinha calada
Adorava contar seus sonhos lutas e estradas
Uma das histórias que me chamavam a atenção
Era de como criou um partido
Que lhe partira o coração


Ajudara fundar também uma paróquia
Que não podia ter outro nome
Partindo de seu confuso ideário
Batizara Cristo-Operário


Riamos a valer
fazendo piadas sobre a burocracia
e estruturas de poder


No caminho depois destas conversas
Ela sempre me levava a pensar que
Há três tipos de cegos

Os que não podem,
Os que ainda não aprenderam,
E os que não querem enxergar


Semeando lutas, colhendo amigos
Sofrendo contradições
(algumas suas, outras do mundo)
Lutando, sangrando
Curando as próprias feridas
Assim se passara sua vida


Uma mulher cega
(era o que se dizia)
Mas quem a conhecia,
sabe que enxergava o mundo
melhor que a maioria


Lina fora notadamente
Lutadora e ativista
A seu modo combateu injustiças


A meu ver, fora em verdade
(embora não o soubesse)
Uma militante comunista



Fábio Che

segunda-feira, 23 de março de 2009

Novos tempos modernos

Lá vem a nova mitologia liberal
Com suas não-realizadas Deusas


A democracia inacabada
A liberdade roubada
A justiça lesada
A propriedade monopolizada
A fraternidade abandonada

Estampadas em bandeiras
De nossa esquerda perdida
Que pretende realizar
(em tons de vermelho)

A revolução "interrompida"
Despojos da luta burguesa
Uma revolução á Francesa


F. F. Massari.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O poeta-operário

Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O que? versos? Pura bobagem!

Para trabalhar não tens coragem.”
Talvez ninguém como nós ponha tanto coraçãono trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés me faltam talvez sem chaminés
seja preciso ainda mais coragem.

Sei.
Frases vazias não agradam.

Quando serrais madeira é para fazer lenha.
E nós que somos senão entalhadores a esculpira tora da cabeça humana?
Certamente que a pescar é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.

Penoso é trabalhar nos altos-fornos onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas com a lixa do verso.

Quem vale mais:
o poeta ou o técnico que produz comodidades?

Ambos! Os corações também são motores.

A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fa-lo-emos marchar num ritmo célere.

Diante da vaga de palavras levantemos um dique!

Mãos à obra!
O trabalho é vivo e, novo!
Com os aradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos que façam mover-se a mó!


Vladmir Maiakoviski (1893 1930)



quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Salga,arde

Salga,arde

Pelo mesmo que custou meu suor
foi o preço da cobrança obscena.
Sim,estigado sempre a querer coisa maior
neguei ser eu ,que sempre me tive pena.
Mais- Valia ter pensado em visto
Mais-Valia ter sorrido
Mais-Valia ter pensado
Mais-Valia ser ousado.
Sugar,sugar,suar,suar
quanto vale a cobrança obscena
quanto vale meu tempo fora de ar
mais,menos,mais que resolver o problema.
Dividam-se os blocos,então
mão ,suor,mão,suor
Divida-se a única intenção
mão,suor,mão,suor.


Igor Gacheiro...
(Produzido logo após um CFS I)